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Reportagem sobre a profissão de Auxiliar de Necrópsia

TRIBUNA CATARINENSE
Edição 1353 de 22/09/2007

Entrevista Claudemir Brune - Técnico em necropsia
As dificuldades da profissão que lida com tragédias, morte e sofrimento alheio


Técnico em Necropsia, esta é uma das profissões que poucas pessoas resistem as suas dezenas de dificuldades. Uma delas é saber lidar com o emocional. Ver uma pessoa morta já é algo desagradável, ainda mais se o cadáver estiver desfigurado. Seja no final de semana, feriado, madrugada, este profissional sempre vai precisar se dedicar ao máximo na ocupação escolhida.
Claudemir Brune, de 43 anos, é o único profissional da categoria que trabalha no Instituto Médico Legal - IML - de Balneário Camboriú, e se não bastasse atende sozinho desde o município de Camboriú até a região de Canelinha.

Claudemir é natural da cidade Herval do Oeste, situada no meio oeste catarinense. O técnico se declara apaixonado pela profissão escolhida, e se diz fascinado pela área da saúde. Como encontrou dificuldades em estudar Medicina, optou pelo curso de Contabilidade. Por muitos anos trabalhou como auxiliar de escritório, mesmo assim, o sonho antigo de lidar com o corpo humano falou mais alto. Claudemir prestou concurso na Polícia Civil, e finalmente tornou-se técnico em Necropsia.

Claudemir Brune é o entrevistado desta semana na Tribuna Catarinense, e irá revelar algumas curiosidades desta profissão, que ele mesmo julga "pouco valorizada".

Tribuna - O que faz um técnico em necropsia?
Claudemir - Trabalho pela manhã no IML, e fico de plantão, no celular, 24 horas. O Copom - Centro de Operações da Polícia Militar é quem me aciona, desde que tenha ocorrido uma morte violenta. Vale salientar que não morte natural. Eles me notificam e me passam o endereço da ocorrência, e dizem se a pessoa foi esfaqueada, baleada, acidentada, suicídio, ou foi encontrada morta numa área pública, e há sinais de lesões, alguma coisa que configure a morte violenta. Vou até o local. Também é acionado o pessoal da delegacia, e juntamente o perito criminal. É todo um conjunto. Logo após, faço uma verificação, e vejo a necessidade de trazer para o Instituto Médico Legal - IML. Primeiramente faço uma ficha de entrada, com todos os dados da pessoa. É feito um reconhecimento visual por um parente, para se ter certeza se realmente é a pessoa, em seguida, é feita a necropsia juntamente com o médico legista. Posteriormente, o corpo é liberado para a família.

Tribuna - Qual a maior dificuldade da profissão?
Claudemir - Atualmente, uma das maiores dificuldades é falta de valorização profissional. Não só o técnico em Necropsia, mas também como o investigador, o escrivão, enfim, é um conjunto. Teria que se valorizar mais estes profissionais e também trazer estrutura. Por exemplo: o IML hoje, teria que ter um papelocopista de plantão, uma dupla de técnico em Necropsia, porque fica difícil trabalhar sozinho. Teria que ter também de plantão o médico legista, o odontologista, clínico legista. Todo um conjunto, par quando der uma ocorrência, todos em seqüência entrariam em função. No caso de um corpo não identificado, inclusive, até mesmo um fotografo de plantão para fazer fotos de qualidade, que serviriam para o inquérito policial. Para colher uma impressão digital adequado, é necessária a presença de um papelocopista, porque se nós fizemos, pode acontecer de colhermos uma impressão que não vai dar leitura. Estrutura e valorização profissional não estão faltando só aqui em Balneário, mas em todo o Estado.

Tribuna - A sua profissão era vinculada à Polícia Civil, e desde 2005 passou a ser responsabilidade do Instituto Geral de Perícias - IGP, porém ainda subordinada à Secretaria de Segurança Pública - SSP. Como você vê esta mudança? Melhorou ou piorou? E como estão os exames de DNA?
Claudemir - Desde a mudança, senti uma melhora. Acredito que daqui pra frente, só tende a melhorar. Há uma expectativa de melhoras. Sobre os exames de DNA, durante a necropsia colhemos sangue do individuou ou algum tecido, e enviamos para o IGP em Florianópolis. Chega lá, o material colhido entra na fila de espera, tem todo aquele procedimento, ás vezes já tem 1500 na frente, então, precisa ter estrutura. Não se pode mais deixar de investir em segurança. A imprensa está aí sempre divulgando o que ocorre e mostrando a necessidade de profissionalizar a SSP, com equipamento e tecnologia. Até mesmo para agilizar as investigações.

Tribuna - Qual a necropsia mais trabalhosa?
Claudemir - O acidente, a arma branca, o suicídio e afogamento não são tão complicados quanto o homicídio por PAF - Projeto de Arma de Fogo. Por quê? Além de você precisar traçar o trajeto deste projétil, você precisa encontrar ele. Porque isto é fundamental para fazer a balística. Não pode acontecer de não encontrar o projétil. Os projeteis com calibre 22 e 32, são ainda mais complicados, porque eles são menores. Se o corpo apresentar várias perfurações, procuramos encontrar todos os projéteis, porque pode ter sido usado dois tipos de arma. O tórax é a parte do corpo mais trabalhosa para a necropsia, em função das vísceras e camadas de gordura. A parte abdominal também é bastante complicada, porque o projétil pode ter ficado alojado na coluna. .

Tribuna - Qual a principal causa das maiorias das mortes em Balneário Camboriú e região? Qual seria a colocação destas causas até o terceiro lugar?
Claudemir - Por incrível que pareça deste que trabalho em Balneário, em primeiro lugar vem o atropelamento, principalmente na nossa BR. É campeão. Depois vem os acidentes com moto e carro. Em terceiro lugar o homicídio, principalmente por arma de fogo.

Tribuna - Como você vê a procura das pessoas, pela profissão de técnico em Necropsia?
Claudemir - Acredito que quando abrir concurso vai ter um batalhão de candidatos, que vão precisar passar pelas etapas. Mas a partir do momento que eles venham exercer a profissão, e que comecem a pegar uma situação atrás da outra, em cima dos plantões. Aonde precisa fazer. O que vai acontecer? De dez fica um. O candidato precisa ter o mínimo de estrutura física, porque tem que ter força e emocional. Estes dois fatores são essenciais. Hoje em dia, são poucos que estão exercendo a função plena. Antes muitos passavam para técnico em necropsia, não se acostumavam, e mudavam de função. Hoje em dia não se tem opção. Se você escolher esta profissão, você fica ou não fica. Quem fizer a inscrição, já vai ser orientado sobre isto durante o curso. Optou, você vai do começo ao fim. 


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