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Matéria sobre o IML de São Paulo 

IML – onde a morte valoriza a vida



Há 14 anos trabalhando no Instituto Médico Legal (IML), José Araújo, auxiliar de necropsia e responsável pelo necrotério da unidade Centro, conta que já tomou até carteirada de parente nervoso de vítima. “Aqui trabalhamos com as famílias que, ao entrar por aquele portão, já se alteram, pois perderam um ente querido”, justifica. Por este e por muitos outros motivos, os funcionários acabam se transformando, em determinados momentos, em assistentes sociais, minimizando o sofrimento de quem passa pela dor da perda.

Cecília Francisco de Oliveira, auxiliar de necropsia, acredita que os funcionários do IML são diferentes porque já aprenderam a lidar com a morte. “Criamos uma defesa para não nos envolvermos, pois também temos família”, afirma. Após 16 anos no IML, ela concluiu que trabalha com o resultado do que existe de pior no ser humano, que é a violência. “Com o tempo, eu mudei muito com relação a sentimentos; dou mais valor à vida, para as coisas boas, não me ligo muito em bobagens porque amanhã posso não estar aqui”, reflete Cecília.
 
O necrotério lembra os corredores de um hospital
 
A auxiliar de limpeza, Fabiana da Cruz Cabral, diz que o cenário "parece um filme de terror". Mas relata também que quem trabalha no necrotério aprende a ser mais humano: "Aqui a gente vê a realidade da vida". Araújo, por sua vez, complementa dizendo que "a morte é a única certeza de todos".

Não há frieza

Os funcionários do necrotério não são frios. Pelo contrário, são ainda mais apaixonados pela vida. A aparente frieza tem origem na capacidade de se manter emocionalmente estável em situações nas quais outras pessoas perderiam o controle. "A gente tem a capacidade de abstrair e focar só aquilo que é importante para a nossa atuação", relata Carlos Alberto de Souza Coelho, diretor técnico e médico legista.

"O pior são as histórias de cada corpo. Por isso, é melhor nem ficar sabendo", ensina Cecília. Esta parece ser mesmo a melhor opção, já que mortes violentas geralmente são as que apresentam mais detalhes de sofrimento. E não se pode esquecer que cadáveres de crianças também são examinados em necropsias.

Primeira experiência

Adentrar nos corredores do necrotério não é muito diferente do que andar em um hospital. No entanto, as características marcantes do local são a temperatura baixa para conservar os corpos e o enorme silêncio.

"A primeira impressão pra mim foi chocante", relata a auxiliar de necropsia. Cecília lembra que a primeira necropsia que realizou foi de um baleado: "Hoje, isto é corriqueiro". Ela diz não esquecer do primeiro caso de HIV oficialmente identificado no País: "A mulher estava extremamente magra e isto não sai da minha cabeça", lamenta.
 
Sala de Necrópsia para alunos
 
Já Araújo afirma ter começado a se interessar pela necropsia quando estava se formando em Educação Física: "Nas aulas de anatomia, lembro que fiquei constrangido e receoso quando vi o corpo em cima da mesa". Mas, agora, ele tem consciência de que está colaborando com a sociedade ao fazer este trabalho. "O que seria do mundo sem os médicos? A diferença é que abrimos corpos de mortos e não de vivos", conclui o auxiliar de necropsia. Ele sabe que é pior trabalhar na emergência de um hospital por ser "muito mais desgastante".

O medo também é só um folclore. Nenhum dos funcionários, durante a entrevista, se lembrou de algo estranho que tenha acontecido no necrotério. As lendas parecem ser contadas apenas do lado de fora do prédio.

IML

O Instituto Médico Legal (IML) conta com quatro unidades na Capital: Clínicas (Centro), Zona Leste, Sul e Oeste. Este último, no entanto, recebe apenas os corpos em estado avançado de decomposição. E, quando a Polícia localiza ossadas, elas são encaminhadas ao setor de antropologia do IML.

Coelho ressalta que é necessário entender o seu trabalho: "O cliente do médico legista é a Justiça". E completa: "Atendemos casos de vítimas de violência, fatais ou não, mas não fazemos tratamentos".

O IML atende os casos de morte violenta – qualquer tipo de morte que tenha uma lesão, ou seja, aquelas que não são naturais, pode ser até mesmo uma queda de uma escada. Já o Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVO) trata das mortes naturais.

Assim que a viatura leva um corpo ao IML, faz-se o registro do corpo no computador. Em seguida, o cadáver é analisado pelo médico legista, que dirá a causa da morte: homicídio, suicídio, atropelamento, acidente, estrangulamento, esganadura, dentre outros.

500 mil exames anuais

Por ano, são realizados meio milhão de exames na instituição IML. Deste total, 10 a 12% em mortos. Coelho ressalta que em cada 100 paulistas que são envolvidos na violência cotidiana, apenas dez morrem, principalmente por arma de fogo e acidente de trânsito. "Este tipo de morte é o que causa maior indignação para a própria sociedade", comenta o médico legista.
 
Reconhecimento fotográfico
 
Antigamente, a identificação do corpo era feita pela família que tinha de ficar frente a frente com o cadáver: "Todas as gavetas dentro da geladeira eram abertas", diz Araújo. Já hoje, com a computação, criou-se o álbum informatizado. As fotos digitais são armazenadas no computador, assim a família pode encontrar o parente falecido ainda no instituto ou já sepultado por meio do arquivo. A iniciativa diminuiu o choque: "Muitos homens se diziam fortes e, ao chegarem lá, desmaiavam", conta o auxiliar de necropsia.
 
No entanto, Coelho destaca que o reconhecimento fotográfico não é considerado a identificação concreta pela lei. Depois, faz-se necessária a confrontação das digitais: "Se coincidir a comparação, aí sim o corpo foi identificado. Este método é barato e confiável", diz o legista.

Anatomia patológica

O IML possui ainda um laboratório onde são feitas as análises de lâminas que contêm o material colhido pelos médicos legistas. Por exemplo, se o médico necessitar de maior detalhamento sobre determinado caso, o órgão ou parte dele é coletado durante a necropsia para ser examinado posteriormente por especialistas.
 

Joyce Ribeiro

 


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